Maio Roxo: doenças inflamatórias intestinais

Diagnóstico precoce e acompanhamento adequado são a chave para a qualidade de vida dos paciente


O ''Maio Roxo'' é considerado o mês de conscientização das doenças inflamatórias intestinais (DII).


São comuns diversos desconfortos no intestino, como dor abdominal e diarreia, mas justamente por serem sintomas inespecíficos, a campanha tem como objetivo alertar a população para a importância do diagnóstico precoce e do tratamento para doenças como diverticulite, doença de Crohn e retocolite, as mais comuns entre os brasileiros – condições que, quando não tratadas corretamente, podem desencadear complicações graves.


De acordo com a Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), as chamadas DII afetam mais de 5 milhões de pessoas no planeta. No Brasil, a doença de Crohn e a retocolite afetam entre 12 e 55 indivíduos em cada 100 mil habitantes. As doenças inflamatórias intestinais são processos que se perpetuam e que precisam ser controlados pelo resto da vida, ou seja, não têm cura.

O que são doenças inflamatórias intestinais?


Doenças inflamatórias intestinais (DII) são problemas que prejudicam a função de uma ou mais partes do intestino, podendo, ou não, se estender para outras áreas do corpo. O intestino é dividido entre intestino delgado e grosso, sendo que o primeiro absorve a maior parte dos nutrientes sólidos ingeridos.

Já o intestino grosso é responsável pela captação de aproximadamente 60% da água e pela formação de fezes. Além disso, ele tem um papel importante na produção de neurotransmissores.

Os tipos mais comuns de DII são a colite ulcerativa e a doença de Crohn.

  • A colite ulcerativa é uma inflamação caracterizada por úlceras, ou seja, feridas no revestimento interno do intestino grosso (cólon) e do reto.

  • A doença de Crohn também é um quadro inflamatório crônico que pode prejudicar qualquer parte do tubo digestório.

Sintomas

  • Perda repentina de peso considerável

  • Mudanças nos hábitos intestinais

  • Sensação de estufamento e desconforto abdominal

  • Acúmulo de gases (flatulência)

  • Barriga inchada

  • Cólicas intestinais e outras dores na barriga

  • Diarreia

  • Constipação (intestino preso)

  • Sangue nas fezes

  • Podem surgir até dores nas articulações e lesões oftalmológicas

Causas


As causas para as doenças são diversas, sendo a mais comum a partir de um conjunto de fatores genéticos, comportamentais e físicos.


Outras possíveis causas, são:

  • Desordens entre microrganismos aumentam as chances de sofrer com doenças inflamatórias intestinais;

  • Falta de fibras e de água;

  • Estresse, depressão e ansiedade, que elevam a sensibilidade das células nervosas no intestino;

  • Avanço da idade, que faz diminuir a capacidade de absorção de alguns nutrientes, como a lactose.

Por trás desse processo, há uma predisposição genética e uma somatória de fatores desencadeantes, entre eles, a dieta. “Alimentação baseada em produtos industrializados, carregados de conservantes e outras substâncias químicas, assim como ingestão de muita fritura e poucos alimentos naturais contribuem para essa alteração da flora intestinal, chamada de disbiose”, exemplifica a gastroenterologista Zuleica Barrio Bortoli, do Hospital Brasília. .


A importância do diagnóstico precoce


O diagnóstico precoce é essencial para evitar a piora do quadro dessas doenças, além da necessidade de internações e cirurgias, incluindo a remoção de partes do intestino. É importante que as pessoas se mantenham atentas aos hábitos intestinais.

Caracterizadas também por idas frequentes ao banheiro, perda de peso e fadiga, as DIIs chegam a levar anos até serem diagnosticadas, impactando a vida pessoal, social e profissional dos pacientes.


Diferenciar para tratar


Embora possam afetar homens e mulheres em todas as faixas etárias, as DIIs costumam ter dois picos de aparecimento: no início da vida adulta e a partir dos 50 anos de idade.

Um ponto fundamental para direcionar o plano terapêutico é fazer a diferenciação das duas condições – e entre elas e os demais problemas intestinais com os quais se confundem, como síndrome do intestino irritável e intolerância à lactose.


  • A doença de Crohn acomete qualquer parte do tubo digestivo, da boca ao ânus, e pode penetrar todas as paredes, gerando estenoses, que são estreitamentos e obstruções, ou mesmo perfurações, as chamadas fístulas.

  • Já a retocolite ulcerativa agride a parte do cólon, que compõe o intestino grosso, e o reto, que se conecta ao ânus. A região afetada se concentra na mucosa, a porção interna e mais superficial do órgão.


Diagnóstico


Analisar as queixas e conhecer o histórico familiar do paciente é o ponto de partida. Exames já amplamente utilizados, como o que detecta sangue oculto nas fezes, ajudam a disparar o alerta.


Em geral, a confirmação se dá por meio de imagens. “Colonoscopias, endoscopias, tomografias e ressonâncias magnéticas contribuem com a investigação”, diz o gastroenterologista Daniel Machado Baptista, do Hospital Nove de Julho, de São Paulo.


Tratamento


O tratamento das DIIs varia de acordo com a avaliação individual. Nos casos mais leves, o controle pode ser feito com medicamentos que reduzem diretamente a inflamação intestinal e são tomados por via oral. Há situações que pedem o uso de corticoides. Outras, de imunossupressores. Naquelas em que a doença avançou de forma grave e os pacientes não respondem a essas medicações, os médicos partem para a prescrição de fármacos biológicos, que agem em alvos específicos causadores das inflamações, ou das pequenas moléculas, esses compostos também são de uso oral.


O transplante de intestino, aliás, como faz questão de ressaltar Eduardo Fernandes, não pode ser considerado um tratamento para DII. “Esse é um recurso para quando a pessoa, em razão da doença, já perdeu quase todo o órgão e desenvolve a síndrome do intestino curto refratária à reabilitação”, esclarece.


Acompanhamento nutricional é crucial nas doenças inflamatórias intestinais porque é comum a pessoa desenvolver uma desnutrição por falta de absorção de nutrientes”, destaca Daniel Machado Baptista, do Hospital Nove de Julho.


Além disso, complementa, é preciso ter o apoio de outras especialidades médicas, uma vez que essas condições podem estar associadas a manifestações extraintestinais em razão da cascata infamatória característica de distúrbios autoimunes. É o caso da uveíte, uma alteração ocular, ou acometimentos de pele. Sem contar as infamações reumatológicas, a exemplo de artrites.


Mesmo com a doença sob controle, o acompanhamento nunca deve ser negligenciado.

A recomendação é fazer exames periódicos, no mínimo duas vezes por ano, para evitar recidivas.


O médico Daniel Baptista vislumbra um futuro em que, a partir de estudos genéticos individuais, seja possível identificar os fatores responsáveis pelas infamações e investigar como cada paciente responde a cada remédio. Dessa forma o tratamento da doença de Crohn e da retocolite ulcerativa será personalizado, de modo a conter sua progressão e prevenir o aparecimento de qualquer complicação.


Bibliografia



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